terça-feira, 21 de outubro de 2008

Análise kleiniana do filme Tropa de Elite*

Sendo uma criação da mente humana, toda obra de arte é permeada pela projeção de processos mentais inconscientes, de modo que permite diversas interpretações. Nesse sentido, o filme Tropa de Elite pode ser visto como apresentando um modelo da mente primitiva.

Uma das características da mente primitiva é se defender, com defesas onipotentes e extremas, como, por exemplo, a cisão e a negação da realidade, das intensas ameaças de aniquilamento, que se intensificam com o aumento da pulsão de morte e a ausência de um ambiente acolhedor. No filme, esse processo é apresentado com a matança e tortura que os policiais fazem nas favelas. Sua forma de combater o narcotráfico é por meio da execução de todos os criminosos, que por sua vez também tem intenção de executar a polícia na medida do possível. Tal medida social, comum desde os tempos primitivos, como por exemplo, a Idade Média, sugere um grupo menos desenvolvido, no sentido de ver na morte de uns a única solução para a proteção da vida de outros. Assim, hereges e traficantes são condenados à perseguição e execução, por serem ameaças perigosíssimas.

Os policiais do BOPE se assemelham muito à imagem de Tânato[s], personagem mitológico que tem coração de ferro, faca na mão e é o mensageiro da morte. O Caveira, policial do BOPE, aprende hinos que exaltam a sua capacidade de espalhar "o medo e o terror", sua fama de "deixar corpo no chão".

Durante o treinamento de seleção de novos oficiais, o que ocorre é uma seleção de indivíduos com características psíquicas e tipos de defesas específicas de uma fase do desenvolvimento, onde o superego é muito primitivo e o ego, para se defender das intensas ameaças da pulsão de morte, cinde a realidade em objetos bons e maus, projetando os últimos para fora, mantendo para si apenas o mundo bom, o que faz com que o indivíduo suporte o peso da realidade.

O BOPE é formado por homens que funcionam de acordo com a posição esquizoparanóide, nome dado por Melanie Klein a esse período mais primitivo do desenvolvimento do ego. Para se valer dessa forma de combater os objetos ameaçadores, espalhando a morte, o sujeito encontra na cisão sua defesa. Capitão Nascimento vive um mundo cindido, onde os objetos bons estão separados dos maus. O usuário de drogas, o traficante, o policial corrupto, só podem ser maus. A esposa, os filhos, o BOPE, só podem ser bons. Não há a integração de aspectos bons e maus em um mesmo indivíduo, o que seria característico de uma posição depressiva, nome dado por Klein à fase do desenvolvimento onde o ego já está mais integrado.

O policial militar escolhe "ou se corrompe, ou se omite, ou vai pra guerra". Ao escolher ir para a guerra, Capitão Nascimento também escolhe não ver o ser humano em cada corpo que derruba e, assim, dá vazão a seu sadismo na tortura. A cisão fornece a capacidade de não ter contato com a realidade total.

Quando Capitão Nascimento toma conhecimento da morte do Fogueteiro, a criança do movimento, e sente remorso, percebe-se a cisão perdendo efeito, "remorso é um sentimento muito perigoso para um policial". Ao subir o morro para resgatar o cadáver, fica evidente que começa a se inserir na posição depressiva. Resgatar o corpo pode ser simbolicamente associado a um de ato de reparação.

Seus ataques de ansiedade são outros sinais de dificuldade em lidar com a realidade não mais cindida, mas em processo de integração; seus conflitos internos e externos são inevitáveis. Com a expectativa do nascimento de seu filho sua pulsão de vida pressiona o ego a investir no futuro, na esperança e no amor. Não pode mais alimentar-se apenas da pulsão de morte e subir o
morro.

A partir desse momento Capitão Nascimento inicia a passagem para a posição Depressiva, onde há o medo de que seus próprios conteúdos possam ferir e espantar os objetos bons, e o sentimento predominante é a culpa. Algum tempo depois do seu ataque de raiva contra Rosane, ele entra em casa e não encontra sua esposa.

Do outro lado temos André Matias. Matias começa o filme mais integrado, mas com dificuldade de fazer escolhas e abrir mão de algumas amizades em detrimento da profissão. Ao tolerar o usuário de drogas em troca de um relacionamento com Maria, Matias demonstra um superego maleável. Convive sabendo que está errado, tanto em subir o morro como civil para visitar a ONG como ao não enquadrar os usuários que encontra. Seu investimento principal não é a polícia, a princípio. Matias se preocupa com os estudos e com Maria.

Mas um policial do BOPE não funciona assim, e não foi assim que Matias entrou no BOPE. Matias é transferido para o cargo de cozinheiro no batalhão policial após dar um golpe no Capitão Oliveira. Uma vez salvo pelos "Caveiras" no morro, ele decide tentar ingressar no batalhão e sair do serviço na cozinha.

Uma consequência de sua passagem pelo morro em meio a tiros é o fato de Maria descobrir sua identidade de policial. Ela o acusa de mentiroso, acabando com seu relacionamento. Já no BOPE, Neto, seu melhor amigo, é morto por traficantes. Neto era destaque nas operações pelo número de cadáveres que fez. Capitão Nascimento se alimenta da dor e da revolta de Matias em relação à morte de Neto ao entregar a escopeta no fim do filme. A cisão se faz presente.

Parte do sucesso do filme pode estar em apresentar uma figura que resolve seus próprios problemas. E seus problemas são nossos problemas. Capitão Nascimento tenta acabar com o problema do narcotráfico depositando suas esperanças no BOPE. E vai até o fim para garantir que sua expectativa tenha condições de ser cumprida. Capitão Nascimento é a figura do pai protetor e punitivo que o Estado não consegue exercer. Ele realiza um desejo que todos temos ou tivemos em algum momento, que é o de ver o sofrimento e a morte daqueles que tememos e odiamos. O atual momento de guerra entre polícia e narcotráficantes facilmente induz a cisão mencionada.

Vemos inocentes caindo por balas de bandidos e policiais, não vemos o remorso ou culpa dos que erram, nem o desespero dos que fogem. Ao ver e ouvir apenas o lado trágico, triste e decadente dos centros urbanos, alimentamos um ódio que só pode ser diminuido com sua externalização contra aqueles que julgamos culpados. Tudo isso porque estamos desamparados, paranóicos com a violência, em busca de algum salvador que exerça essa justiça onipotente sem remorso, tal como gostariamos muitas vezes. E uma vez que nossa realidade esta cindida para procurar pelo objeto bom e fugir do mau, não temos dificuldade em identificar Capitão Nascimento como uma figura desejável.


*Agradeço ao caro colega Guilherme pela ajuda que forneceu na construção do texto.

Um comentário:

José Alves disse...

Parabénsa pela análise.
Muito Boa.