sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças: uma analise psicanalitica


          O filme aborda o processo de luto e melancolia envolvido na perda do objeto de desejo, objeto de investimento libidinal que foi negado. Enquanto o luto consiste num processo onde há um começo, meio e fim, na melancolia o sujeito repete o processo de luto indefinidamente. No luto o objeto de desejo foi perdido, na melancolia o próprio objeto é confundido com o ego, portanto sua perda consiste num ferimento edípico narcísico, como a perda de uma parte de si mesmo, e uma grande revolta em vista da culpa e da incapacidade de evitar o acontecimento, com origem no superego.

Em toda identificação há ambivalência. Se podemos odiar tudo aquilo que amamos, é o ódio o sentimento alimentado quando o superego constata a perda de uma parte do ego, como se algo no ego fosse responsável por essa perda, e a auto-depreciação fosse necessária para expiar a culpa, ou uma maneira de deslocar a raiva pelo objeto perdido. A parte do ego perdida é a parte identificada com o objeto. Uma diferença central que Freud aponta entre luto e melancolia é a ausência de “perturbação na auto-estima” no luto. Na melancolia o sujeito se apresenta como “desprovido de valor, incapaz de qualquer realização e moralmente desprezível, ele se repreende e se envilece, esperando ser expulso e punido. Degrada-se perante todos, e sente comiseração por seus próprios parentes por estarem ligados a uma pessoa tão desprezível.”

Estudando o paciente melancólico Freud nota que “as auto-recriminações são recriminações feitas a um objeto amado que foram deslocadas desse objeto para o ego do próprio paciente.” A ambivalência afetiva conseqüente da perda se manifesta também no interesse do melancólico de fazer o objeto perdido constatar seu estado de depressão, impondo uma culpa e desfrutando sadicamente do sofrimento do outro, quando a pessoa amada/perdida se encontra acessível ao melancólico. “É exclusivamente esse sadismo que soluciona o enigma da tendência ao suicídio, que torna a melancolia tão interessante e tão perigosa. [...] Nas duas situações opostas, de paixão intensa e de suicídio, o ego é dominado pelo objeto, embora de maneiras totalmente diferentes.”

            Freud escreve que no luto o mundo ficou pobre e vazio, com a ausência do objeto. Mas se na melancolia o objeto identificado, internalizado, se torna parte do ego, então é o próprio ego que se decompõe em vazio e tristeza. O sujeito se torna dependente do objeto, e o objeto deve corresponder às expectativas do sujeito, semelhante ao romantismo do século XVI e XVII, como Shakespeare em Romeo e Julieta, onde a morte é melhor do que a vida sem o objeto de desejo.

            Tudo aquilo que amamos pode deixar de existir, tudo aquilo que desejamos pode não se realizar. No melancólico o luto é internalizado, ele deixa de enlutar sobre o objeto para enlutar a si mesmo e as suas perdas. Concebe que se o prazer e o amor são efêmeros, então estão sujeitos a sofrerem, a perdê-los mais uma vez. Se, ao contrario, concebe que são eternos, e os perdeu, conclui que nunca mais poderá conseguir de novo.

Para Freud, o luto é aceitar a perda e a efemeridade da vida em si. Por não aceitar a efemeridade, o melancólico não pode concretizar o luto do objeto perdido. Por não fazer o luto do objeto perdido, não pode se deixar amar, porque amar é sempre amar algo que pode ser perdido, algo transcendente.

A vitória da pulsão de morte sobre a de vida é característica do melancólico. O investimento na vida é abandonado; o sujeito entra num processo constante de autopunição e a única solução que encontra é a aniquilação do ego ou objeto internalizado. No caso do filme, Clemetine opta pela segunda opção. E Joel o faz por vingança.

            A capacidade de estabelecer vínculos depende da capacidade de concretizar o luto, simplesmente porque amar implica em lidar com perdas. Estabelecer vínculos sem o risco da perda é estabelecer um falso vinculo, um vinculo incompleto. E Lacuna oferece essa possibilidade. Sempre que uma nova relação é estabelecida, a possibilidade de negar sua perda esta presente.

            Uma vez que o Ego é o depositário de catexias abandonadas, suplantado por um conjunto de traços mnêmicos com atividade inconsciente e representações pré-conscientes, erradicar da memória traços mnêmicos seria infligir uma alteração descomunal ao Ego. Os traços mnêmicos e as representações formadas entram em contato uns com os outros através de uma rede associativa imensurável, que justifica o método de associação livre e a interpretação dos sonhos. A consciência do Ego seria prejudicada profundamente, uma vez que boa parte de seus conteúdos pré-conscientes ficariam dissociados, o e sujeito entraria num estado confusional inexplicável, uma vez que não tem consciência do dano que ele mesmo produziu na sua estrutura mental.

“Uma das características principais do Ego é estabelecer a conexão entre a percepção sensorial e a ação muscular, ou seja, comandar o movimento voluntário. Ele tem a tarefa de auto-preservação. Com referência aos acontecimentos externos, o Ego desempenha sua função dando conta dos estímulos externos, armazenando experiências sobre eles na memória, evitando o excesso de estímulos internos (mediante a fuga), lidando com estímulos moderados (através da adaptação) e aprendendo, através da atividade, a produzir modificações convenientes no mundo externo em seu próprio benefício."  (1923)

 Joel, ao passar pelo processo que apaga sua memória, acaba alterando e descaracterizando o seu Eu, o conjunto de memórias (percepções) que tinha.  A partir do momento que não pode mais se lembrar de Clementine, Joel esquece também todas as sensações, percepções e representações verbais que estavam ligadas a ela. Joel, por mais que tente reagir quando se arrepende, os apaga de vez do consciente, deixando-os supostamente apenas na esfera do inconsciente. Como a relação com o sistema perceptivo está abalada, Joel sente algo estranho quando vê que há folhas arrancadas de seu diário, mas não se lembra de tê-las arrancado. Essa descaracterização do Eu também pode ser apontada quando, logo no início do filme, Joel desiste num impulso de ir ao trabalho e pega um trem para Montauk. Neste caso seria o impulso do Id dominando um Ego alterado.

Clementine é a melancólica que nega a perda, não se liga com as memórias felizes que seu namoro proporcionou, e destrói o passado para estabelecer um novo presente. Ela apresenta uma personalidade claramente impulsiva, evidenciada pela sua iniciativa em estabelecer diálogos, as mudanças constantes no visual, a maneira exaltada e apressada de se expressar, as reações que tem quando emocionada. Sua vontade de negar a perda, apoiando-se na tecnologia, exprime sua impulsividade. Seria ela incapaz de estabelecer vínculos duradouros e, portanto, estava fadada a afundar o relacionamento, e encontrou na Lacuna apenas uma forma de acelerar o processo de negação da perda ou sua relação foi sincera e a busca pelo serviço de Lacuna consistiria em uma defesa maníaca frente à dor da separação?

Do outro lado, Joel apresenta um aspecto tímido e retraído, que passa muito tempo pensando sobre as ações e pouco agindo. Podemos supor que a figura de Clementine substitui a mãe de Joel, devido ao papel que Clementine desempenha no sonho de Joel – propondo idéias e guiando o mesmo através do desmoronamento das memórias, sugerindo uma reativação da mãe acolhedoura. E quanto a solução que Joel encontra para salvar a memória de Clementine colocando-a junto com sua mãe? Podemos supor que da mesma forma que Joel aprendeu a se separar da mãe, e ainda assim nutrir um amor pela mesma – seja enquanto lembrança, seja enquanto objeto bom internalizado  – ao reviver sua situação edípica, Joel supera a dor da separação de Clementine assim como o fez com sua mãe. Um forte indicativo dessa atualização do amor pela mãe é demonstrado na fixação de Joel pela virilha de mulheres. Na lembrança que Joel coloca Clementine, ele observa sua mãe por debaixo de uma mesa, e ela esta de saia se debruçando sobre a mesa. Joel permanece observando, tímido, mas curioso, o que pode ver da mãe. Com Clementine ele manifesta essa “tara” por virilha em uma cena onde ela expõe, rapidamente, a virilha para provocá-lo.

Ao mesmo tempo em que Joel faz uma escolha anaclítica de objeto, isto é, orientado baseado nas figuras parentais, sua reação ao perder Clementine se aproxima daquela encontrada no sujeito que faz escolhas objetais narcísicas. Sua escolha amorosa em relação a Clementine pode ter sido com base narcisista, uma vez que transformou-a num ideal, o qual substituiu o investimento erótico, havendo uma forte fixação no objeto. Assim, pela identificação narcisista com o objeto, é ao narcisismo que o investimento libidinal retorna, não o direcionando ao objeto externo.

“Esse ego ideal é agora o alvo do amor de si mesmo desfrutado na infância pelo ego real. O narcisismo do indivíduo surge deslocado em direção a esse novo ego ideal, o qual, como o ego infantil, se acha possuído de toda perfeição de valor. Como acontece sempre que a libido está envolvida, mais uma vez aqui o homem se mostra incapaz de abrir mão de uma satisfação de que outrora desfrutou. Ele não está disposto a renunciar à perfeição narcisista de sua infância; e quando, ao crescer, se vê perturbado pelas admoestações de terceiros e pelo despertar de seu próprio julgamento crítico, de modo a não mais poder reter aquela perfeição, procura recuperá-la sob a nova forma de um ego ideal. O que ele projeta diante de si como sendo seu ideal é o substituto do narcisismo perdido de sua infância na qual ele era o seu próprio ideal.” Freud -Sobre o Narcisismo: Uma Introdução (1914).

Dessa maneira, Joel amava a si mesmo por meio de Clementine e, ao perdê-la, há um processo de despersonalização do personagem, observável por meio da fragmentação e perda inconsciente de si mesmo, de parte de seu Ego.

Essa vivência leva o personagem de Joel a entrar num estagio depressivo (melancólico ou não), no qual está preso à imagem do objeto. Quando constata a atitude de Clementine, tenta vingar-se do objeto mal apagando as memórias de seu consciente, gerando lacunas em sua esfera psíquica.

Contudo, na tentativa de elaborar o luto, realiza, por meio do desejo, o impedimento da destruição das lembranças de Clementine. Assim, permite a reconstituição do objeto desejado por meio de representações internalizadas.

Uma analise psicanalítica de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças estaria incompleta se não fossem dedicados alguns parágrafos para abordar aquilo que preenche a maior parte da obra: o sonho. (Não pretendo interpretar o sonho, mas apenas apontar as características da formação de sonhos que Freud postulou fazendo referencias ao filme, e, na medida do possível, propor um possível significado).

O sonho é, segundo Freud, a via para que o material inconsciente possa se manifestar, a realização de um desejo inconsciente. A construção do sonho possui algumas leis, regularidades, que Freud descreveu em sua grande obra de 1900, como a presença dos fatos diurnos recentes, a utilização de vivências infantis, figurabilidade, ausência de contradição, ausência da noção espaço-temporal, condensação e deslocamento.

Quando chega ao prédio em que mora, Joel encontra Frank, seu vizinho, que ao pegar suas cartas na caixa de correio, faz o seguinte comentário: “putz. Os únicos cartões de Dia dos Namorados que recebo são da minha mãe. Bem patético, não?”. Joel sobe para seu apartamento, toma um remédio e dorme. Em seu sonho, Joel aparece deitado na cama, e Frank se encontra ao lado, com as cartas na mão, dizendo quase a mesma frase (“só recebo cartões de Dia dos Namorados da minha mãe. Bem patético né?”). Antes de dizer tal frase, Frank pergunta a Joel como este está, e ele reponde sem mexer os lábios.

Nesse mesmo trecho, tem-se um exemplo da ausência de noção espaço-temporal e também de condensação. Joel se encontra deitado em sua cama e Frank ao lado, com as cartas nas mãos, em uma imagem distorcida, que pode ser tanto o próprio apartamento de Joel, como também a caixa de correios do prédio (onde se encontraram anteriormente).

            No momento em que Frank lembra a Joel que falta apenas um dia para o “dia dos namorados”, a cena onírica muda, para quando Joel conversava com seus amigos e dizia que faltavam três dias para o “dia dos namorados”. Dessa forma, observa-se nesse trecho a ligação entre representações.

Em seu sonho, Joel se lembra de uma frase que Clementine disse: “mas eu sou só uma garota ferrada procurando pela minha paz de espírito.”. Provavelmente era algo que ela sempre costumava dizer, já que o próprio Joel diz se lembrar desse discurso e, depois do processo em que “apagou” Clementine de sua mente, e eles se reencontram, Clementine repete a mesma frase.

            Quando Joel conta a seus amigos que Clementine não se lembrava mais dele, se recorda de ir ao trabalho dela e encontrar ela com outro homem. Quando este homem se aproxima de Clementine, ela diz “Patrick! Meu menininho.”. Mais adiante no sonho, Joel vê um homem abaixado, pegando algumas coisas no chão, e pergunta ao Dr. Howard quem seria ele. O Dr. Howard então responde com a mesma frase de Clementine: “este é o Patrick, meu menininho”.

            Os sonhos não são montados apenas a partir de fatos que já aconteceram e de conteúdos inconscientes. Quando Patrick está no quarto de Joel e liga para Clementine, a conversa deles ao telefone influencia o sonho de Joel. Ele reconhece a voz de Patrick, e se lembra de quando o viu com Clementine. No momento em que Patrick chama Clementine de Tangerina, Joel se lembra do dia em que Clementine pintou o cabelo com a cor laranja, o dia em que lhe deu o apelido de Tangerina.

            Observa-se a condensação também na cena em que Joel está na sala de seu apartamento com Clementine, onde começa a chover. Ele se lembra de quando era criança e chovia. Os dois momentos estão condensados no sonho: a sala de seu apartamento, Clementine e a mesa, e a chuva, a música, o telhado de sua casa. Ele se esconde embaixo de sua mesa, lembrando de quando se escondia embaixo do telhado quando criança. Logo em seguida, se lembra de quando criança se esconder na cozinha embaixo da mesa. Nessa condensação observa-se também a ausência da noção espaço-temporal.

            Há um momento em que Joel aparece com Clementine dentro da pia da cozinha, e sua mãe está lavando a louça. Ela canta a música de Dom Pixote, e provavelmente cantava-a enquanto fazia as tarefas domésticas, mostrando assim mais uma ligação entre sua mãe e Clementine. Além disso, apesar de parecer ser a mãe quem canta, a voz na verdade parece ser a de Clementine. Vê-se então mais um exemplo de condensação. O fato de estar dentro da pia cheia d’água, pode mostrar o desejo de estar perto de sua mãe, querer que ela o toque, o lave, talvez até uma condensação com o momento do banho, onde é comum as mães colocarem os bebês em banheiras e lavá-los.

            Em uma cena, Joel tenta esconder Clementine em sua humilhação. Vai então com ela até seu quarto quando era adolescente e sua mãe o vê se masturbando. Logo em seguida, ele está na cama, com Clementine, na praia de Montauk. A praia deveria ter uma significação muito importante para Joel, pois foi onde conheceu Clementine. Além disso, a idéia sobre masturbação estava ligada então com Clementine, que é a pessoa com que realizava seus desejos sexuais.

            O Dr. Howard pede para Joel ir para sua casa e pegar todas as coisas que o faça lembrar de Clementine. Dessa maneira, o Dr. Howard acredita que saberá todas as idéias que se ligam à representação de Clementine para Joel, pretendendo assim criar um mapa cerebral de sua memória. No entanto, as idéias possuíam outras ligações, inconscientes, e por isso Joel não pôde dizê-las ao Dr. Howard. São nessas idéias inconscientes que Clementine fica “escondida”, ou seja, Clementine não é apagada do inconsciente de Joel.

O filme expõe brevemente o fim do namoro de Joel e Clementine, com uma curta briga após Clementine voltar para casa de madrugada.  Joel fica irritado quando Clementine volta para casa depois de uma noite fora, não concebe a parceira se divertindo sem ele. Esta, por sua vez, aparenta fazê-lo como uma forma de se desligar desse objeto que a consumiu tanto e que está sujeito a perda. Antes de sofrer com a surpresa da rejeição, ela prefere tomar parte no fim, como uma ultima forma de obter o controle sobre a relação.

“Quando acontece uma pessoa ter de abandonar um objeto sexual, muito amiúde se segue uma alteração de seu ego que só pode ser descrita como instalação do objeto dentro do ego, tal como ocorre na melancolia; a natureza exata dessa substituição ainda nos é desconhecida. Pode ser que, através dessa introjeção, que constitui uma espécie de regressão ao mecanismo da fase oral, o ego torne mais fácil ao objeto ser abandonado ou torne possível esse processo. Pode ser que essa identificação seja a única condição em que o id pode abandonar os seus objetos. De qualquer maneira, o processo, especialmente nas fases primitivas de desenvolvimento, é muito freqüente, e torna possível supor que o caráter do ego é um precipitado de catexias objetais abandonadas e que ele contém a história dessas escolhas de objeto. Naturalmente, deve-se admitir, desde o início, que existem diversos graus de capacidade de resistência, os quais decidem até que ponto o caráter de uma pessoa desvia ou aceita as influências da história de suas escolhas objetais eróticas.” (Freud, 1923).

Cabe apontar, teria Joel reconhecido, a sua maneira, que a aniquilação do objeto introjetado, suas memórias, carregaria junto a aniquilação daquilo que o faz o que é? Teria, no ultimo segundo, a pulsão de vida vencida a de morte? O filme expõe por diversas vezes o luto de Joel, seu conflito com as lembranças, seus momentos de tristeza e solidão. Durante seu sonho, teria ele elaborado o luto, escolhendo as lembranças? No final do filme é ele quem diz “tudo bem” quando o casal descobre a história que tiveram a respeito de lembranças apagadas. É ele quem aceita manter a relação, mesmo consciente da dor que uma futura separação traria. Em outras palavras, como Melanie Klein descreveu em sua posição depressiva, quando ele se nega a apagar Clementine de sua vida, ele demonstra a introjeção dos aspectos bons do objeto, livre de ameaças externas, para suportar a separação. Quando se apaga a memória, não há objeto bom introjetado – conscientemente, no mínimo – e toda futura perda será marcada pela ausência dessa experiência de perda anterior, que para Melanie Klein começa no desmame. Joel preserva seu objeto bom, suas lembranças valiosas. Clementine não dispõe da mesma capacidade. Ela guarda apenas as lembranças dolorosas da relação, e por isso precisa eliminá-las. Não preserva o lado bom do objeto, é ameaçada constantemente pelo ruim. A lembrança de Joel é dolorosa, precisa ser destruída, a culpa pelo desfecho da relação é negada, assim como a dor da perda.

            A elaboração do luto, por fim, consiste não em apagar aquilo que perdemos, e sim se lembrar das boas qualidades daquilo que se foi. Não consiste em esquecer, mas em lembrar bem (Carel, 2007). Introjetar o objeto bom pode ser ilustrado como o apego a boas lembranças do objeto, preferir os melhores momentos aos piores quando se remeter à pessoa perdida. Reconhecer o valor (positivo) do passado e se dirigir ao futuro, levando as boas experiências como referencia para as futuras.

E no que consiste a terapia psicanalítica senão numa tentativa de estabelecer novas relações com o passado, proporcionando um ego fortalecido com identificações positivas? E em que medida o serviço que Lacuna oferece não está próximo da “solução” vendida pelo slogan farmacêutico de psicotrópicos, que suprimem o desprazer sem elaborar a origem do do sofrimento? Lacuna e Prozac são mercadorias oferecidas que proporcionam ao sujeito se distanciar da sua própria influencia no processo de adoecimento. Uma forma socialmente maníaca de negação. Que sujeitos estamos construindo quando a experiência, a responsabilidade, a culpa, são camuflados com a alteração de neurotransmissores?

            O trabalho de Michel Gondry não é apenas um belo romance com uma pitada de ficção, mas uma crítica ao hedonismo que a modernidade exalta, e um pedido para o público reavaliar a forma como se pensa a dor da perda.

Referências:

FREUD, S. (1923). O Ego e o Id. in Obras Completas, Rio de Janeiro: Imago

FREUD, S. (1917). Luto e Melancolia. in Obras Completas, Rio de Janeiro: Imago

FREUD, S. (1914). Sobre o Narcisismo: Uma Introdução in Obras Completas, Rio de Janeiro: Imago

CAREL, H. (2007).The return of the erased: Memory and forgetfulness in Eternal sunshine of the spotless mind (2004), International Journal of Psychoanalysis, August 1, 2007

http://virtualpsy.locaweb.com.br/index.php?sec=53&art=159 acessado dia 23 de Junho de 2009

3 comentários:

Anônimo disse...

muito bem escrito e colocado. parabéns!!

Mônica Wesley disse...

Analise perfeita e completa do filme, ía escrever sobre isso no meu blog, mas nem vou entrar nesse mérito de psicologia, não conseguiria sem te plagiar... hauaua =*

Loreane Castro disse...

Vou assistir agora...